Difícil é a decisão de como começar a contar uma história. Desde as minhas primeiras experiências de produção textual, a poética (mas não menos desgastante) indecisão era erroneamente traduzida na proposição “difícil é a primeira frase”. Agora sei que não se trata realmente de com quais palavras iniciar uma história, mas sim da onde começá-la.
Eis que me encontrei, felizmente não por muito tempo, agora pouco nessa situação. Eu deveria ir direto ao assunto, mas temo admitir que uma das coisas que mais me divertem nessas aventuras textuais são as divagações absurdamente prolixas que se intrometem nas minhas introduções. Na minha opinião, dá uma certa ilusão de surpresa. Você começa o texto achando que eu vou falar de Lost, e eu acabo falando sobre o que me aconteceu quando eu estava na metade de um cigarro, na parada de ônibus. Ou então você simplesmente não perde seu tempo tentando adivinhar sobre o que eu vou escrever.
De qualquer modo, prefiro começar pela minha estante. Desde que me mudei pro Rio, venho pedindo a minha avó que coloque algumas prateleiras no meu quarto pra que os meus livros possam ficar todos juntinhos no mesmo lugar e, o mais importante, pra que eu possa de vez em quando me maravilhar com a quantidade de livros que eu tenho. Algo bem pseudo-intelectual, eu admito. Mas em minha defesa ouso apenas dizer que eu sinceramente gosto de ler (e é um gostar bem Felicidade Clandestina, que dá aquela vontade de ficar agarrada ao livro e não deixar ninguém tocar). E, por gostar de ler, eu actually leio.
Estava eu há uns dez minutos atrás (ou mais, nunca se sabe o quanto uma introdução como essa possa ter me afastado de meu momento de inspiração) guardando na prateleira meu livro Iniciação à história da filosofia, do meu professor Danilo (insira um barulho de tiete aqui), o qual eu precisei consultar, porque ler (e entender, principalmente) Wittgenstein não é uma coisa fácil de fazer. Ao colocar o livro de volta na estante, eu me deparo com uma pequena coleção chamada Conceitos da psicanálise. É uma coleção de mais ou menos uns oito ou nove livrinhos, que eu comprei na banca, sobre psicanálise (pelo título esse meu comentário talvez seja um tanto quanto redundante – agora quem é obcecado por Gilmore Girls aí diz duas vez it’s repetitive and redundant).
Fiquei curiosa quanto a ordem de leitura dos livros. Procurei ver se eles tinham algum tipo de numeração. Peguei então o primeiro exemplar, Afetos e Emoções. So far, nenhum número aparente. Mas então, ao folhear rapidamente o livro em minhas mãos, eis que cai de dentro um pedaço de papel azul, desses de bloquinhos que se colocam ao lado dos telefones para anotar recados, com um pequeno texto escrito (anexado no fim desse texto), julgando pela caligrafia, por mim. E eu leio e não me lembro por que ou sobre o que escrevi. E é aí que me vem a estranha sensação de que existem pessoas diferentes na gente. Pessoas que se separam com o tempo. Pessoas que mudam ao ponto de, se não for pela nossa memória ou algum registro que sirva como uma, serem completamente diferentes uma da outra. E eu me arrepio ao pensar na linha que passa por todas essas pessoas e as costuram numa mesma existência. O filósofo sentado no escuro de nosso quarto se pergunta: qual será o peso de minha linha quando não houver mais o que costurar?
Anexo:
Eu andei por aí, esperando conhecer você. Desde a primeira vez que meus olhos lhe viram, até hoje, espero para conhecer você. Mesmo com os milhares de segundos que eu tive de você somados a esses minutos desligados. O seu verdadeiro Eu. Atrás das palavras e dos olhares. Eu andei por aí. E eu sei que a vida que lhe faz existir é mais vida aqui. Desde a última vez que meus olhos lhe viram, até hoje, a sua vida é mais vida aqui do que com você. Mesmo sem saber de você, vive bem aqui, e não aí. Eu não sinto muito, meu amor. Eu odeio você.